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O digital muda não só o ambiente de negócios, mas também o de inovação

A maioria das empresas e governos está perdendo esta corrida, sobretudo no Brasil

Cezar Taurion * em http://cio.com.br

Publicada em 15 de julho de 2016

Recentemente li o relatório do World Economic Forum, “The Global Information Technology Report”, baseado em pesquisa anual, que mostra como as sociedades e os países têm usado a tecnologia digital. Ele reconhece claramente que estamos no início da chamada “Quarta Revolução Industrial”, onde a tecnologia digital expande-se exponencialmente, afetando toda a sociedade e o ambiente de negócios. Em 2016 já entraremos na era dos zettabytes no tráfego mundial de dados pela Internet, com a marca do 1,1 zettabytes (mais de um trilhão de terabytes) circulando pelo planeta. Em 2020 estima-se que este número chegará a 2,3 zettabytes!

O relatório destaca alguns pontos que quero debater aqui. O primeiro é a transformação na natureza da inovação. Inovações digitais acontecem com muito mais velocidade e intensidade, e com custos muito menores às inovações no mundo analógico. WhatsApp, Uber e Airbnb, por exemplo, não surgiram de dentro de centros de P&D. Isso muda o conceito de mensuração de inovações como por número de patentes. A aceleração das inovações baseadas no mundo digital, cria rapidamente novos modelos de negócio e a reinvenção dos atuais modelos, muitas vezes derrubando setores sólidos, consolidados por décadas. Inovar deixa de ser uma demanda para diferenciação, mas passa a ser base da sobrevivência empresarial.

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As tecnologias digitais permitem criar novos mercados, como aqueles propostos por FinTechs. Por serem ágeis e de operação barata, chegam até à população não bancarizada com ofertas que são não viáveis às pesadas estruturas dos bancos tradicionais. O uso de Analytics Avançadoo (aliemntado pelo Big Bata) permite que uma empresa entenda os anseios de cada cliente individualmente e aja de acordo com esse conhecimento.

O segundo ponto é que inovação passa a ser uma atividade corriqueira. Ter um setor específico de inovações não é mais suficiente, pois a inovação surge de forma espontânea na colaboração entre funcionários e clientes. Ela não é mais concentrada, mas disseminada pelo DNA da empresa. Inovação constante demanda formação de talentos, inclusive com ensino voltado ao empreendedorismo. Em um mundo onde software passa a ser a linha mestra dos negócios, o ensino de lógica e programação é essencial. Essa iniciativa da Apple é algo que vale a pena acompanhar de perto. Sugiro uma leitura e reflexão do artigo “Apple’s New App Will Teach the Next Generation How to Code”. O mundo digital vai demandar um novo currículo educacional, que abandona a memorização de fatos e fórmulas para focar mais em criatividade e comunicação, coisas que o ensino brasileiro, na sua grande maioria, está desatualizado.

O terceiro ponto, e mais preocupante, é que a maioria das empresas e governos está perdendo esta corrida. A revolução digital avança célere pelas pessoas, que usam as novas tecnologias e criam novos hábitos, enquanto as empresas agarram-se aos seus velhos e conhecidos modelos de negócio, tentando manter seus clientes presos às práticas que não mais satisfazem aos clientes digitais. Os governos pecam por tentarem manter regras antigas e não entenderem que as práticas regulatórias que predominaram na sociedade industrial não mais acompanham a velocidade das transformações na era digital.

Este novo mundo digital transforma as relações do trabalho, cria novos modelos financeiros e novas moedas, e afeta os atuais conceitos de privacidade. O mercado de trabalho será afetado dramaticamente, inclusive com trabalhos intelectuais mais repetitivos substituídos pela robotização. Recomendo a leitura de um estudo muito instigante, “The Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation?”, que aborda o tema do que podemos chamar de “desemprego tecnológico”. Foi orientado aos EUA, mas em maior ou menor proporção afetará todos os países, inclusive o Brasil. À medida que os avanços nas tecnologias de “machine learning” e robótica avançarem, será inevitável a substituição de funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que consistem de tarefas e procedimentos bem definidos poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados.

Como o custo da computação cai consistentemente ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas. O processo é acelerado pela reindustrialização nos países ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra barata como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os robôs. Este processo também está ocorrendo na China e já existem diversas fábricas totalmente automatizadas e cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas tradicionais. O texto estima que cerca de 47% dos empregos atuais, nos EUA, estão em risco. Entre estas funções estão motoristas de veículos como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas, desenvolvedores de software, administradores de sistemas de computação, etc.

Os governos, em sua maioria, não estão antenados para essas mudanças. Recomendo a leitura de um texto, “A Call for Agile Governance Principles”, que chama atenção para esse fato, e propõe que os governos (e as empesas) repensem seus atuais modelos de governança. O Brasil, particularmente, está mal na foto. Ocupamos a 72◦ posição entre 139 países analisados no  “Network Readiness Index”. No ambiente de negócios e inovação, estamos entre os piores do mundo, ocupando a 124◦ posição! No impacto econômico causado pelas tecnologias digitais estamos em 75◦, o que denota que por aqui o uso de tecnologias inovadoras ainda é bastante limitado.

Não existe mais tempo para complacência, tanto de governos, como das empresas. Apesar dos problemas que passamos, devemos agir, em todas as esferas. Por um lado, pressionando o governo para ser mais ágil e eficiente, e por outro, as empresas devem também agir, deixando de lado a percepção que as transformações só ocorrerão lá fora e que nosso mercado, protegido por restrições regulatórias será barreira. São barreiras baixas, que em um mundo globalizado, tendem a desparecer ou perderem força. As mudanças estão acontecendo e os executivos devem estar antenados com elas. Recomendo estudar casos concretos de transformações nas empresas, acompanhando os relatórios e estudos “Digital Transformation of Industries” do próprio Fórum Mundial. São estudos neutros, pois não são relatórios de empresas que estão vendendo tecnologias, que geralmente tendem a colocar sua própria visão de mundo em seus estudos.

Não temos saída…para sobreviver e prosperar na era digital, as empresas, sem exceções, precisam repensar cada elemento do seu negócio, para se tornarem empresas digitais. Cada dia inerte, é um dia a menos na sua chance de sobrevivência…

 

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data

Sobre Rose Meusburger

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