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Moradores do Recife criam espaços de lazer às margens do Capibaribe

Jardins, praças e parques foram implantados por iniciativa de pessoas comuns para evitar ocupações indevidas na beira do Rio Capibaribe

Publicado em 13/01/2019, em https://jconline.ne10.uol.com.brÁrea de lazer à beira do rio na Vila Santa Luzia, bairro da Torre / Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem

Área de lazer à beira do rio na Vila Santa Luzia, bairro da Torre
Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem
Cleide Alves
cleide@jc.com.br

Praça RioTeca. Praça das Cigarras. Jardim Secreto. Nenhum desses lugares existe formalmente no Recife. Eles são janelas abertas para o Rio Capibaribe por livre e espontânea vontade de moradores que resolveram assumir a tarefa de transformar áreas ribeirinhas degradadas em espaços públicos atrativos na cidade. Tudo é feito com poucos recursos. O principal ingrediente é a vontade de contribuir com um ambiente mais saudável para todos.

É isso que Claudemir Amaro da Silva vem fazendo há 12 anos num trecho do Capibaribe na Vila Santa Luzia, localizada na Torre, bairro da Zona Oeste do Recife. Marceneiro de profissão, ele aproveitou a retirada de palafitas da comunidade Abençoada por Deus das margens do rio plantou árvores e instalou no local uma biblioteca comunitária para as crianças da vila. Depois expandiu com brinquedos, bancos, mesas e criou a Praça RioTeca.

“Algumas pessoas perguntam qual é o meu interesse com isso, elas não entendem que alguém pode fazer o bem sem esperar nada em troca. Eu só quero tomar conta desse pedacinho da beira do rio para ver a alegria das crianças”, declara Claudemir Amaro da Silva. “Se eu não tivesse feito isso, essa área teria sido invadida novamente por barracos, agora temos um espaço de lazer gratuito”, comenta o marceneiro.

Todas as peças da praça são de materiais descartados que ele restaura, remenda e bota para funcionar novamente. A comunidade usa o espaço para confraternizações. “Fiz a festa de aniversário do meu filho aqui, em setembro do ano passado (2018), os convidados amaram, não gastei com brinquedos nem com salão. O lugar é maravilhoso, esse trabalho de Claudemir é lindo”, declara a tapioqueira Natália Costa, mãe de Thiago Renan, 8 anos.

No Poço da Panela, bairro da Zona Norte da cidade, o educador Cristiano Cavendish reveza os cuidados com a família e com a Praça das Cigarras, criada por ele há cerca de oito anos às margens do rio, na frente da casa onde mora. A ideia surgiu por acaso, quando Cristiano Cavendish encontrou na rua um galho de árvore em formato de pássaro e resolveu colocar na beira do Capibaribe. Logo em seguida, a escultura solitária ganharia outras companhias.

“Achei outro galho diferente e também trouxe, fiz banquinhos com tocos de coqueiro e depois ganhei peças de amigos para ampliar o espaço”, afirma. O artista plástico Augusto Férrer doou as esculturas da cigarra e do Dom Quixote; Braz Marinho levou um pêndulo; Maurício Silva colaborou com duas estátuas moldadas como cabeça e a praça foi surgindo. “De repente, era um ponto de encontro, um lugar ventilado e sombreado onde se pode relaxar e ler um livro”, comenta.

A estante de livros colocada na praça, diz ele, começou a estimular o hábito de leitura entre crianças e adultos. “As pessoas pegam livros, deixam outros, levam para casa, devolvem. É uma troca bacana, num lugar precioso do Recife. Quem vem aqui esquece a miséria urbana, até o trânsito é pouco porque a rua não é asfaltada”, observa Cristiano Cavendish. A Praça da Cigarras fica próxima ao Parque Santana.

Secreto

Em outro trecho do Poço da Panela, um grupo de moradores resolveu mudar o destino de um terreno às margens do Capibaribe, no fim da Rua Marquês de Tamandaré, com lama, cheio de mato e usado para o descarte de lixo. “Era um espaço que inspirava medo, hoje é um lugar de convivência”, declaram o empreendedor Fábio Carvalho e o professor de agronomia Rômulo Menezes, participantes do coletivo que deu origem ao Jardim Secreto.

Antes de criar o jardim, o grupo procurou a prefeitura e ouviu do poder público que não havia recursos para recuperar a área degradada e transformá-la numa praça. “Se fôssemos esperar, nada teria sido feito, então, colocamos a mão na massa e começamos a intervenção”, recorda Fábio Carvalho. “Botamos umas plantinhas e em pouco tempo as pessoas passaram a respeitar a nova ocupação do lugar, é um exemplo de que não precisamos de muita coisa para mudar uma realidade”, diz Rômulo Menezes.

A prefeitura, informam, ajudou com a limpeza inicial do terreno e retirou dez caçambas de entulhos. Criado em meados de 2017, o Jardim Secreto é um ambiente que propicia a socialização. “A oportunidade de interação social é o diferencial do Jardim, promovemos rodas de diálogo, eventos, oficinas, as pessoas se relacionam de maneiras diversas”, destaca a artista visual Clara Khan, participante do coletivo.

Conquista

As ocupações espontâneas de espaços públicos no Recife por cidadãos comuns – às margens do Capibaribe e em outras áreas da cidade – são maneiras que a população encontrou para mostrar que pode colaborar com a construção da cidade. E também podem funcionar como provocação ao poder público, na avaliação do arquiteto e urbanista Geraldo Marinho. “As pessoas estão dizendo que, às vezes, é preciso ser mais modesto, porque elas conseguiram transformar áreas usando poucos recursos”, afirma.

Jardins, hortas comunitárias, praças e bibliotecas criadas por moradores na beira do Rio Capibaribe representam uma grande conquista, destaca Geraldo Marinho. “Em termos de cidadania, significa que as pessoas estão tomando iniciativas transformadoras, isso é um ganho para a cidade. Elas estão abrindo espaços públicos agradáveis, confortáveis e seguros para crianças e idosos. São áreas com grande potencial e que poderiam ser mais bem tratadas pela prefeitura.”

Esse tipo de intervenção, diz ele, pode e deve ser replicada na cidade. “É uma forma de a população cobrar da prefeitura e também um alerta para a gestão pública dizer às pessoas que as ações não dependem só do governante, depende de todo mundo”, declara Geraldo Marinho. “Moradores das Graças, por exemplo, poderiam fazer alguma coisa em ruas que levam ao rio enquanto a obra do Parque Capibaribe não avança”, sugere o arquiteto.

Para Geraldo Marinho, quatro fatores contribuem para esse movimento na cidade: a generalização da pauta ambiental; o crescimento do voluntariado nos últimos 15 anos, que faz as pessoas serem ativas onde moram; a difusão do trabalho colaborativo; e a pauta dos espaços públicos, temam, segundo ele, ainda restrito ao meio técnico e político.

Arquiteta e urbanista da Secretaria de Inovação Urbana do Recife, Rebecca Dantas, disse que a prefeitura vem trabalhando para potencializar e oferecer mais estrutura em áreas criadas por iniciativa de moradores. Uma delas é o Jardim Secreto, que ganhará um espaço de convivência transplantado da Casa Cor com mesa bancos, cadeiras e bicicletário. “A pedido de integrantes do grupo, será acrescentada uma jardineira”, informa Rebecca Dantas.

“O morador é o protagonista desse espaço e o novo ponto de convivência do Jardim Secreto é o resultado da união da sociedade civil, do poder público e da iniciativa privada”, afirma a arquiteta. As iniciativas, diz ela, provam que é possível fazer a cidade de forma conjunta.

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